quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O CAVALEIRO DE VASCONCELOS

Era uma sexta-feira de quaresma. João fez o que fazia sempre. Saiu da casa da namorada altas horas da noite. Esfregou as mãos. Esfregou as mãos no nariz. Cuspiu. Montou seu velho cavalo. Cumprido o ritual, acenou pra namorada e partiu. Sua namorada morava em Rodrigo Silva. Ele não. João morava no Vasconcelos, uma paragem distante uns dois quilômetros dali. Seu cavalo já conhecia o caminho e, se já conhecia, João podia se distrair, pensar pensamentos bobos. Então lá foi ele pensando pensamentos bobos. Todo mundo ali falava do tal do cavaleiro misterioso que rondava as estradas na quaresma, mas isso é coisa de bobo:

__Ah, isso é conversa pra boi dormir!

Ele tinha retrucado sua sogra, sim senhor!

__Vê-se lá, cavaleiro! Assombração é coisa de bobo!

É, mas a coragem de João durou até o momento em que ele viu aquele cavalo preto na encruzilhada, na saída do povoado. O cavalo ainda ia lá, mas o cavaleiro... Era um toco de homem, usava uma capa comprida, preta. João parou. O cavaleiro estava na sua passagem. Existiam dois caminhos para se chegar em casa: um pela estrada de terra (que era seu preferido), outro pela linha, a estrada de ferro. Raspou a goela e tomou rumo. Acima da estrada, seguiu pela linha. Acelerou o trote. A ventania das montanhas cortou seu rosto, levando sua coragem.

Da estrada de ferro era possível ver a estrada de terra lá embaixo. Com muito medo, João olhou. Aquele cavaleiro o estava seguindo lá de baixo. Corria com seu imponente cavalo negro, cheio de enfeites. A sua capa ondulava com o vento. Mas seu rosto era mistério. João correu como um louco, o coração na boca. Para chegar à sua casa tinha de sair da estrada de ferro e atravessar a estrada de terra mais uma vez. Isto significava que ia dar de cara com o cavaleiro de novo. Aproximou devagar da encruzilhada. Olhou de um lado e do outro. Nada. Silêncio. Pôs a mão em concha no ouvido. Nem sinal de galope. Meteu as esporas no cavalo e atravessou a estrada. Abriu a porteira, já gritando sua mãe. Desceu de qualquer jeito do cavalo. Suas pernas estavam pesadas de medo. Abriu a porta. Quando, já dentro de casa, virou-se para fechar a tramela, ele quase caiu pra trás. A cabeça negra do cavalo misterioso estava impedindo que ele puxasse o trinco! E depois apareceu o braço do cavaleiro, com uma longa luva, também negra. João rezou, não ia conseguir fechar a porta. Falou o nome de tantos santos quanto pôde, de todos que se lembrava, até do esquecido São Pedro de "Catigerona", lá da capelinha de Rodrigo Silva. E, de repente, fez-se silêncio. A porta estava livre. Tudo estava calmo. Sua mãe apareceu e fechou a porta, perguntando o porquê da gritaria.

Conta-se que João dormiu vários dias debaixo da cama, com medo. Nunca mais namorou e nem saiu do Vasconcelos de noite. Depois contaram pra ele que o Cavaleiro de Vasconcelos era a alma penada de um homem que havia morrido por ali há muitos anos, numa guerra. Desde então patrulhava as noites de quaresma, em busca de intrusos na guerra que, para ele, nunca acabou. Até hoje, dizem os mais velhos, quando todo mundo já está dormindo, pode-se ouvir o trotear do seu cavalo a atravessar a rua, indo pro Vasconcelos, ocupar seu posto eterno.


Alex Bohrer
----------------------



GUERRA EM CACHOEIRA

Talvez você já tenha ouvido falar que houve uma guerra em Cachoeira. Mas provavelmente se pergunte: aconteceu mesmo essa guerra? Quando? E que tipo de guerra era?

Vários documentos atestam os atritos entre portugueses e paulistas que culminaram com o episódio conhecido como Guerra dos Emboabas. Vários historiadores também se ocuparam com o tema. Os relatos mais minuciosos parecem ser os de Diogo de Vasconcelos e o do historiador cachoeirense João Baptista Costa. Vasconcelos dedica um capítulo especial à “Batalha da Cachoeira”, entrando em interessantes detalhes. João Baptista, porém, narra o episódio dentro do arraial com riqueza de informações, ora em forma de registro histórico, ora em forma romanceada, para o que deve ter se baseado em tradições orais (sobre a narrativa de João Baptista Costa, discorreremos em outra edição). Mas o que foi essa guerra que tanto despertou a imaginação dos historiadores mineiros?

Alegadamente os bandeirantes paulistas foram os descobridores das primeiras minas de ouro. As notícias sobre a riqueza repentina advinda da exploração do mineral espalharam-se rapidamente. Levas de imigrantes principiaram a chegar, não só de São Paulo, guiados pelos antigos caminhos bandeirantes, mas de todo o Brasil e Portugal. Os forasteiros, especialmente os portugueses, não eram vistos com bons olhos pelos paulistas. Estes, como descobridores das minas, julgavam-se usurpados do seu direito de exploração, que queriam, fosse exclusivo. Os paulistas não achavam justo ter que partilhar o fruto de suas descobertas.

O imaginário nacional idealizou a figura dos bandeirantes paulistas como intrépidos homens, bem vestidos, protegidos e armados. Mas isto não passa de idealização. Andavam nossos bandeirantes, em geral, descalços, com uma espécie de bermuda e muitas vezes descamisados. Entre as armas estavam o arco e flecha, herança dos índios. A língua era uma mistura de tupi com português. Os paulistas começaram a chamar os portugueses de emboabas, palavra indígena que significa “galinha calçuda”, uma alusão ao fato, estranho aos paulistas, dos portugueses usarem calças e botas!

Os primeiros atritos tiveram origem no Caeté, envolvendo o poderoso português Manuel Nunes Viana, que logo viria a se tornar o líder emboaba. Tanto paulistas quanto emboabas reivindicavam o direito de exploração. Não tardou muito e o conflito deu origem às escaramuças armadas que a historiografia consagrou como a Guerra dos Emboabas. Corria o ano de 1708.

Do Caeté, cada vez mais acuados, os paulistas vieram se refugiar em Cachoeira. Aqui prepararam-se para a grande batalha, fortificaram o arraial, cavaram trincheiras (que ainda podem ser vistas em algumas partes). Vindos pelo Amarante, seguindo o Rio Maracujá, os portugueses enfrentaram os paulistas numa batalha encarniçada, conhecida como Batalha da Cachoeira. Três dias depois os Emboabas expulsavam os paulistas do arraial. Consagraram a vitória na Matriz de Nazaré (então em construção), sagrando Manuel Nunes como Governador das Minas. Mas essa é uma outra história...



Alex Bohrer
----------------------



A PONTE DE ANA DE SÁ

Ao viajante que quisesse atingir as Minas do Sabará, na Comarca do Rio das Velhas, vindo de Cachoeira do Campo, Vila Rica ou Capão do Lana, o caminho mais recomendado e utilizado era o que passava por Casa Branca, atingia o Rio das Pedras, o Rio Acima, as Congonhas do Sabará e, finalmente, Sabará. Em 1732 escreveu Francisco Tavares de Brito sobre estes percursos: “seguem-se Pouso dos Ilhéus, Lana e daqui se toma mão esquerda a quem quer ir caminho direto para Vila Real [Vila Real do Sabará] e se vai pela Cachoeira à vista da Casa Branca, buscar a passagem do Garavato”. Há grande possibilidade desta ‘passagem do Garavato’ ser os fundos dos vales desta ampla região que hoje divide os municípios de Itabirito e Ouro Preto.

Para vencer o Rio das Velhas no seu primeiro encontro com a dita estrada, foi erigida, a poucos quilômetros do centro do Arraial da Casa Branca, numa baixada muito peculiar, a famosa Ponte de Ana de Sá. Construída de pedra e madeira (como é até hoje, apesar da introdução em algumas partes de concreto e ferro), esta ponte vence o rio em dois lances: o primeiro leva o madeirame para uma ilha de pedra, natural, bem no meio do aguaceiro; o segundo leva da ilha à outra margem da estrada, já próximo à subida para vencer o vale. Poucos quilômetros acima dessa ponte, em direção a Casa Branca e Soares, ergueu-se, já em princípios do século XVIII, o povoado de Ana de Sá, com sua venda, estalagem e capela.

O topônimo ‘Ana de Sá’, posto que muito antigo, é certamente lembrança dos primeiros habitantes das Minas. Especialmente nesta região abundam nomes pessoais ou sobrenomes na toponímia local: Soares, José Henriques, Maciel, Sérgio, Lana, Mota, Paiva, Fernandes, Catarina Mendes etc.

Tal ponte era passagem obrigatória aos viajantes, tendo recebido a visita e a menção de alguns ilustres personagens do século XIX, como os cientistas naturalistas Auguste de Saint-Hilaire, Spix e Martius, alem de nosso imperador Dom Pedro II.


Alex Bohrer
----------------------




RODRIGO SILVA

Os primeiros registros relativos ao local denominado José Correia sempre estão ligados à Santa Quitéria do Alto da Boa Vista, antigo povoado colonial, hoje quase abandonado, nas proximidades de Rodrigo Silva. A mineração de topázio sempre esteve presente na história do lugar. Viajantes estrangeiros já relatavam a exploração de topázio no início do século XIX. Algumas destas lavras eram gigantescas, empregando centenas de escravos.

Até a chegada dos ferroviários, José Correia compunha-se de fazendas espalhadas por léguas de distância. A mais famosa delas é a Fazenda do Fundão, ainda existente. Nesta fazenda nasceu, em 1870, Alfredo Fernandes dos Prazeres, personagem importante na construção da nova cidadezinha ferroviária. Quando, no começo da década de 1880, fez-se o projeto da estrada de ferro ligando o Rio de Janeiro à Ouro Preto, projetou-se também uma nova paragem a se estabelecer em José Correia, que teria depois seu nome mudado para Rodrigo Silva, em homenagem a um ministro imperial. O complexo ferroviário - inaugurado por Dom Pedro II em 1888 - estendeu-se posteriormente de um lado a outro, paralelo à estrada de ferro. Esta conformação urbana em torno da antiga ferrovia deu a feição atual do arruamento, que, grosso modo, se estende por uma larga e comprida rua principal paralela aos trilhos. Desta rua principal partem pequenas ruelas ou becos que atingiam, outrora, sítios e fazendas, nos fundos dos vales.

No começo do século XX fundou-se a Sociedade Musical Santa Cecília de Rodrigo Silva, símbolo primeiro da cultura desenvolvida pelos ferroviários. No arquivo desta banda encontram-se composições feitas por estes trabalhadores, demonstração de grande apuro musical.

Hoje, nos trilhos de Rodrigo Silva não passam mais trens, mas a cultura do topázio continua, com a exploração do famoso topázio imperial, raríssimo.

O distrito, propriamente dito, foi criado pela Lei nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962, com território desmembrado do distrito sede.


Alex Bohrer
----------------------



PADRE AFONSO DE LEMOS

Afonso Henriques de Figueiredo Lemos nasceu em Cachoeira do Campo em dezembro de 1847. Desconhecemos dados sobre sua infância, sabendo-se somente que desde cedo já possuía personalidade retraída. Ainda adolescente, ingressou no Seminário de Mariana, onde se ordenou sacerdote em 1871. Na ocasião foi nomeado pároco da antiga Freguesia de Rio das Pedras. Pouco depois, conseguiu transferência para sua querida Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré, onde permaneceu por mais de 40 anos. Seu espírito empreendedor e seus esforços para tornar a educação acessível a todos foram reconhecidos pelo Bispo Dom Silvério - de quem se tornou amigo e companheiro em suas viagens à Roma (onde foi recebido pelo Papa Leão XIII) - e pelo Imperador Dom Pedro II que, visitando Cachoeira em 1881, conheceu sua obra.

Entre seus feitos estão: as primeiras campanhas pela educação pública de Cachoeira, que culminou com a fundação da escola que hoje leva seu nome; idealizou o Colégio Dom Bosco e o Colégio das Irmãs, conseguindo para isso a vinda dos salesianos; construiu a Igreja de Nossa Senhora das Mercês; conseguiu a instalação do primeiro telégrafo e posteriormente telefone.

Morreu em 03 de Setembro de 1911 em Hargreaves, próximo ao Trino (hoje Estação Dom Bosco). Uma multidão seguiu o cortejo que percorreu as principais ruas de Cachoeira. Padre Afonso foi sepultado em frente à capela-mor da Matriz de Nossa Senhora de Nazaré. Por sua vida toda dedicada à comunidade, tornou-se figura muito querida e estimada, sendo até hoje lembrado com carinho pelos mais velhos.


Alex Bohrer
----------------------






OS CHAFARIZES DE CACHOEIRA

Água encanada em casa era um luxo a que se prestavam poucas fortunas. Em Cachoeira do Campo, somente umas três residências possuíam sistema de abastecimento interno, o resto da população se contentava com o baldeamento diário. Outrora, Cachoeira possuiu cerca de dez chafarizes. Por se localizarem, em algumas situações, no meio de ruas, impedindo a circulação de veículos motorizados, ou mesmo por desuso contínuo, eles foram desaparecendo. Somente três resistiram ao ataque do tempo e dos vândalos. São eles: o Chafariz da Praça, o Chafariz do Corte e o Chafariz de Pe.Afonso.

O Chafariz da Praça (ou dos Cavalos) é o mais antigo de todos. Situa-se na Praça Filipe dos Santos, próximo ao Cruzeiro de Pedra. Possui um grande tanque ladeado de pedra azul e uma bica. Tinha, em outros tempos, dois encaixes de ferro batido onde se apoiavam os baldes d’água. No tanque, os cavalos matavam a sede e descansavam das longas jornadas nas estradas poeirentas de Minas. Seu pináculo de pedra, visto em antigas fotos, infelizmente desapareceu.

O Chafariz do Corte fica nas proximidades da Igreja das Mercês, na encruzilhada do Tombadouro, no lugar chamado Corte. Esta água descia do Tombadouro por uma canalização rústica, feita de pedra e barro cozido, aberta em cortes nos quintais (o que provavelmente deu nome à fonte em questão). Conserva, gravado em pedra, o ano de 1876.

Situado no alto da Ladeira, o Chafariz de Pe.Afonso foi construído em 1877 às expensas do venerando sacerdote. Possui a forma de um pilar onde duas vertentes afloram de lados opostos, correndo a água a um tanque situado na parte inferior e que era usado como bebedouro para animais. Numa das faces do pilar há a enigmática inscrição: “1877 L.J.M.”.

Em 1913, quando foi inaugurada a canalização pública, os chafarizes foram desligados do velho encanamento de pedra e dos arroios coloniais e acoplados ao novo sistema. Com o tempo, entraram em desuso e foram desativados de vez.


Alex Bohrer
----------------------

A IGREJA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS DE MIGUEL BURNIER

A construção que mais se destaca em Miguel Burnier é, sem sombra de dúvida, sua bela igreja. Com o ímpeto do crescimento de princípios do século XX, as pequeninas e esparsas capelas do XVIII e XIX não comportaram mais os ofícios sagrados, tamanho o número de fiéis no distrito, que então passava por uma fase de expansão considerável. Coube ao grande empreendedor e benfeitor de Miguel Burnier - Carlos Wigg - o mérito da criação do espaçoso templo do Sagrado Coração de Jesus, ou melhor, o mérito coube à sua mulher, católica fervorosa, Alice da Silveira Wigg. Esta igreja foi inaugurada em 1934 em meio a várias comemorações. Neste mesmo ano, a capelinha de São Julião foi demolida, sendo a imagem, logo em seguida, transportada para o novo edifício.

Passados mais de 70 anos de sua construção, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus ainda impressiona pela suntuosidade. A edificação absorveu vários estilos, adaptando-os. Contudo, o estilo que mais se sobressai é o neo-românico, redescoberto desde o século XIX na Europa e transformado, consecutivamente, em modismo internacional. Tal tipologia era grandemente influenciada pelos templos medievais românicos.

Excluindo-se a torre sineira, a fachada da igreja de Burnier lembra, em muito, a estrutura das primeiras basílicas cristãs, erguidas ainda sob influência do paganismo romano. Ao centro, sobressai uma ampla porta em arco pleno, sem, contudo, apresentar as detalhadas e enfeitadas arquivoltas concêntricas típicas do estilo original (especialmente no norte de Portugal). Domina o frontão, uma rosácea lindamente ornamentada, cujo desenho nos remete aos arabescos árabes. Uma cruz tipo céltica encima todo o conjunto.

Internamente, segue o citado estilo basilical, com nave central, naves laterais, abside, transepto cruciforme, arcos plenos etc.


Alex Bohrer
----------------------

AMARANTINA

Cresceu a cidadezinha aos pés da velha capela, que mais tarde os féis transformariam em uma grande igreja, com duas torres imponentes. Insiste a lenda em dizer que o atual templo, que no século XIX substituiu a antiga capelinha, é réplica, em menor tamanho, da Igreja de São Gonçalo do Amarante, em Portugal. É óbvia a semelhança entre as torres das duas igrejas: a torre mineira deve ter se inspirado na portuguesa, estando aí a provável origem da lenda. Trinta anos atrás, sua capela-mor, infelizmente, foi destruída. A imagem original do santo também se perdeu. Conserva hoje em seu interior, de interesse artístico, dois altares muito antigos (um dos quais, apesar das modificações, guarda características do Estilo Nacional Português, o que bem demonstra sua fatura recuada) e um curioso chafariz.

Pouco distante desta igreja estão as ruínas de uma imensa casa de pedra. Argumenta a tradição popular que o edifício foi construído pelos primeiros bandeirantes, que lá chegaram nos idos do século XVII. Parece realmente, pela análise morfológica, que se trata de estrutura muito antiga. Porém, não foram encontrados documentos acerca da verdadeira origem da ‘Casa Bandeirista’ e, nem tampouco, da própria Amarantina.

Acredita-se que o povoado, propriamente dito, tenha surgido em meados do XVIII, quando a produção agrícola de Cachoeira entrou em seu apogeu, reservando para os agricultores dos baixios o plantio de alguns produtos especiais, cujo terreno encharcado era propício. Esta baixada, porque estava constantemente inundada pelas águas do Rio Maracujá, recebeu o nome de Tijuco. Posteriormente, passou a ser São Gonçalo do Tijuco, em homenagem ao santo vindo de Portugal. Coexistiu, daí em diante, com a denominação de São Gonçalo do Amarante, em lembrança da cidade de origem da imagem. No século XX - Decreto-Lei n°1.058, de 31 de dezembro de 1943 - mudaram-lhe o nome para Amarantina.

Vale a pena ressaltar que o distrito preserva uma festa raríssima, as Cavalhadas em honra a São Gonçalo, patrimônio cultural dos mais interessantes de Ouro Preto.


Alex Bohrer
---------------------

A PONTE DO PALÁCIO

Após o esmagamento da Revolta de Filipe dos Santos, em 1720, o Conde de Assumar propôs ao rei de Portugal a transferência da capital para Cachoeira, por ser lugar mais aprazível e estratégico. Os planos de Assumar objetivavam ainda instalar aqui um amplo palácio e uma casa da moeda. A transferência completa nunca foi feita. Entre 1730 e 1733, contudo, foram construídos uma casa de campo e um quartel da cavalaria, no local onde hoje está o Colégio das Irmãs. A partir daí os governadores costumavam passar vários dias em Cachoeira, longe da turbulenta Vila Rica.

Em 1779, Dom Antônio de Noronha inaugurou o Quartel General da Cavalaria (o antigo Colégio Dom Bosco), alguns quilômetros distantes da casa de campo. Em 1782, Dom Rodrigo José de Meneses transformou essa casa de campo, agora desmembrada do quartel, numa construção imponente e espaçosa: o Palácio de Veraneio dos Governadores. Para dar acesso ao novo complexo foi construída uma sólida passagem, a célebre Ponte do Palácio. Deste lugar partia o Caminho de Dom Rodrigo, ligando Cachoeira do Campo a Ouro Preto (o que também facilitava sobremaneira o acesso à Comarca do Rio das Velhas, via Ponte de Ana de Sá, em Glaura). Quando o Visconde de Barbacena chegou nas Minas, em 1788, escolheu Cachoeira como sua residência oficial. O Palácio se tornaria célebre com o advento, um ano depois, da Inconfidência Mineira. Datam do século XIX os primeiros registros fotográficos da ponte - nestas fotografias é possível ver ainda os vestígios dos jardins e do pomar dos governadores.

Pela Ponte do Palácio passaram homens famosos como Dom Pedro I e seu filho, Pedro II, Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga, Saint-Hilaire, Johann Emanuel Pohl (que a descreve em 1819) e Manuel Bandeira. Hoje, o trânsito pesado da rodovia e o tráfego desrespeitoso de caminhões sobre a estrutura ameaçam esse patrimônio do município. As frágeis balizas de contenção são sempre colocadas e são sempre destruídas. Só há uma forma de evitar a lenta agonia desse bem: conscientização e fiscalização.

A Ponte do Palácio nunca sofreu reforma (com exceção dos parapeitos que foram reconstruídos na década de 1990). Seria muito oportuno um projeto paisagístico que valorizasse esse importante monumento brasileiro.

Alex Bohrer
------------------

A IGREJA DE NOSSA SENHORA AUXILIADORA DE MIGUEL BURNIER

Em princípios do século XX, sob auspícios da mulher do Sr.Wigg, Dona Alice, foi inaugurada a Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora de Calastróis em Miguel Burnier. Com o crescimento acentuado da povoação e da indústria, a capela foi elevada à categoria de sede de paróquia, ereta em 16 de julho de 1918. A invocação - Nossa Senhora Auxiliadora - vinha, desde 1896, sendo propagada na região pelos padres salesianos de Cachoeira, cujo orago protetor é a Senhora Auxiliadora.


Ao que parece, a atual igreja foi construída sob o arcabouço de uma capela mais antiga, erguida na mesma colina. No frontispício podemos perceber quanto dessa velha ermida está preservada na atual: as janelas e a porta de verga arqueada, o óculo de caprichoso desenho barroco, o frontão triangular simples - tudo leva a crer tratar-se de capela colonial, do tipo que até hoje encontramos com certa abundância pelos campos de Minas. Excetuando-se a torre sineira - única e inserida à esquerda - a fachada lembra a vizinha Capela do Chiqueiro (que será analisada aqui futuramente)

Internamente, possui delicado forro estucado e altares da época da criação da paróquia, com refinados detalhes em madeira e mármore. O altar-mor está abrigado em uma abside - inexistente nas criações barrocas, mas comuns ao estilo românico e gótico. O Altar do Santíssimo possui forte tendência neoclássica, com dois grandes nichos laterais, vazios como o trono. A sacristia guarda um interessante oratório pintado de branco.

Atrás do templo ergue-se a residência do vigário, chamada também de Casa do Padre Marcelino, tendo aí residido o célebre sacerdote italiano que substituiu Padre Afonso na cabeça da paróquia de Cachoeira, por ocasião de sua morte em 1911 (aliás, a Freguesia de Cachoeira sempre alternou a administração da região de São Julião com o Pilar de Ouro Preto e com a então recente Paróquia de Auxiliadora de Calastróis, criada sob intercessão de Alice Wigg).

Todo o conjunto, incluindo o pequeno adro e o diminuto coreto frontal, se acha atualmente em estado ruinoso e abandonado.


Alex Bohrer
------------------------

domingo, 3 de julho de 2011

Alex Bohrer lança o livro “Ouro Preto: Um Novo Olhar”

A cidade símbolo da liberdade no Brasil é um convite ao passado. Centenas de prédios históricos, ruas tortuosas e um relevo único tornaram Ouro Preto o primeiro lugar do país a ser declarado Patrimônio da Humanidade. A antiga capital de Minas é o emblema maior do período de ouro da Coroa Portuguesa, mas também se tornou sinônimo de rebeldia e revolta nos ideais dos Inconfidentes.

Ao lado de toda essa riqueza vista na sede, Ouro Preto é um município culturalmente rico, condizente com a vastidão de seu território, com diversos distritos e povoados, todos a contar a história da velha Vila Rica. E é justamente com esse foco que o historiador Alex Bohrer lança o livro “Ouro Preto: Um Novo Olhar”. Com as belas ilustrações de Adenilson José, esse livro era há muito esperado.

Ouro Preto é muito mais que seus casarões, museus e igrejas. Vários distritos e povoados se espalham pelo município e são repositórios da história do antigo Termo de Vila Rica, tão quanto a famosa sede. Era urgente uma releitura de Ouro Preto, um novo olhar sobre a célebre cidade do ouro.

Alex Bohrer, professor, ouro-pretano e cachoeirense (como gosta de afirmar), é conhecido pelos estudos que desenvolve sobre História de Minas Gerais e Arte Colonial. Atualmente é Professor Efetivo do IFMG (Instituto Federal de Minas Gerais). Possui diversos textos publicados sobre Barroco Mineiro e História de Ouro Preto, no Brasil e no exterior. Foi em hora precisa - 300 anos de Vila Rica - que a Prefeitura de Ouro Preto tornou possível, através da comissão comemorativa do tricentenário, a publicação dessa obra.

Nas páginas desse livro, o leitor descobrirá uma nova Ouro Preto, pungente e surpreendentemente inexplorada.

Prepare-se, então, para uma viagem única na história de Minas e do Brasil!
------------------------
Local: Auditório do Anexo do Museu da Inconfidência

Endereço: Rua Vereador Antonio Pereira, 33, Centro Histórico – Ouro Preto

Lançamento do livro e abertura da exposição com as ilustrações originais de Adenilson José: 09 de julho, às 19h

Período da exposição: 09 a 24 de julho

Horário de visitação: 12h às 18h, de terça a domingo



-------------------------------

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

GRAMÁTICA E TEMPO


Todo pretérito é imperfeito.
Todo futuro é mais que perfeito.
Até que se torna presente...


16/11/2010

Alex Bohrer

-------------------------------------------

quinta-feira, 29 de julho de 2010

OS CONTOS QUE VOVÓ CONTAVA

Da minha infância, o que eu guardo com mais carinho são as histórias que minha avó contava. Na meninice em Rodrigo Silva, terra natal de minha família, ou nos dez anos em que morou conosco em Cachoeira, vovó “Tote” tinha sempre um “causo” pra contar. Efigênia Pereira Fernandes era filha do conhecido José Pereira, português de nascimento que presidiu a Banda Santa Cecília por vários anos, e da Dona “Tiló”, mineira da gema, de quem com certeza deve ter herdado muitas das histórias que sabia narrar como ninguém.

Nas terríveis noites de tempestade em Rodrigo Silva ou em Cachoeira, quando a luz acabava, a tv ou o rádio cediam sempre lugar para seus contos. À luz trêmula das velas, os netos se reuniam em volta dela. As assombrações de suas histórias tomavam formas fantásticas em nossas cabeças de criança. As sombras incertas nas paredes viravam lobisomens, mulas-sem-cabeça, seres fantasmagóricos animados pela penumbra. E assim crescemos animados por este último suspiro da tradição dos contos da vovó. Hoje os entretenimentos virtuais privam os pequenos do contato único com este mundo mágico que minha avó pintava-nos com maestria.

Do seu marido, meu avô, Alberto Fernandes - dos Fernandes de Rodrigo Silva, como gostavam de salientar, talvez diferenciando-os dos de Cachoeira - lembro que era um homem muito alto, um pouco desajeitado, e misterioso, sempre misterioso. Vivia no seu quarto, em meio às suas tranqueiras (que não eram poucas), nunca saia de casa. Lembro-me sempre dele sentado cabisbaixo em uma grande pedra de amolar que ficava no terreiro. Quando chegávamos na sua casa, eu corria ao seu quarto para tomar-lhe bença: “Deus abençoa”, era a resposta dada com um leve aperto de mão. Na hora do almoço, lá vinha ele, se abaixando para não bater a cabeça na porta. Comia sempre numa velha cuia, lembrança dos tempos em que era um conhecido tropeiro a serviço de seus próprios negócios e, antes, a serviço dos de seu pai, Alfredo Fernandes, senhor das terras da famosa Fazenda do Fundão e que foi um dos pioneiros de Rodrigo Silva - que na época nem se chamava Rodrigo Silva, mas sim José Correia (Rodrigo Silva era o nome de um dos ministros de D.Pedro II que acompanhava o Imperador quando este inaugurou a Estação Ferroviária de José Correia em 1 de janeiro de 1888). Meu avô faleceu em 1986 sem que soubéssemos ao certo a sua idade verdadeira. Seu registro foi feito em 1909, mas era comum as crianças das fazendas crescerem sem pisarem num cartório. O registro civil ainda era visto com olhos desconfiados: “coisa da tal da república”... Muitas das histórias de minha avó tinham meu avô como protagonista: sua fama de curandeiro e benzedor o fizeram objeto de muitas lendas e causos até hoje correntes em Rodrigo Silva.

E assim eu fui crescendo. O olhar atencioso de vovó nunca se afastava de nós. Um dia a saudade foi maior e ela quis voltar para Rodrigo Silva, sua terra querida. Os netos já estavam crescidos. Sentiu que sua missão havia terminado. E como a brisa leve que passa pelos campos assim também minha avó passou pela vida: calma, leve, pequena. Até o fim da vida manteve a brandura do seu sorriso alegre e sem dentes, que a tantos cativou. No rosto já lhe vinha a marca dos anos, mas sua memória invejável a remetia em corrida pelos campos de Rodrigo Silva, por entre as flores que só lá nascem, nos tempos em que ouvia também de sua avó e de sua mãe as histórias que embalaram a minha infância.

No dia 6 de novembro de 1998, 6 dias antes de completar 80 anos, uma multidão acompanhou D. “Tote” à sua última morada, o pequeno cemitério localizado no alto da serra, de onde a vista domina a pequena Rodrigo Silva, com suas casinhas, a igreja de S. Antônio, a Estação e a linha de ferro, lá embaixo. Ali, no silêncio do Campo Santo, repousa no mesmo túmulo de seu marido.

Alex Bohrer
------------------------------------------------------



O MONSTRO DO PÉ-DE-BEIJO

Era um homem baixinho, narigudo, risonho. Seu nome era Antônio, mas o chamavam só de Nico. Trabalhava na Central do Brasil, fiscalizando a estrada de ferro nas proximidades de Rodrigo Silva. Ele ia todos os dias verificar a “linha” desde o 19 até o 22 (a quilometragem dada pelos primeiros ferroviários foi adotada pelo povo de Rodrigo Silva que batizou com números o nome de vários lugares. Assim temos a quarta, o 19, o 22, etc).

Ele era, além disso, um homem teimoso. Uma temusura só. De vez em quando cismava de ir verificar os trilhos e os dormentes lá pelos lados do 22, altas horas da noite. Ia sob os protestos da sua mãe, dona Tiló:

__ Não fica andando de noite menino! Essa linha tá cheia de assombração!

Um encolher de ombros era a resposta. Ele ia sim! E de noite! Era um homem de responsabilidades. O trem das dez e meia tinha de passar sem risco. Qualquer imprevisto ia ser culpa dele.

Então, num desses dias de lua cheia, lá foi Nico, cantarolando e assobiando, pro 22. Deixou Rodrigo Silva pra traz e entrou na “linha”. Foi brincando de contar os dormentes, para não pensar nas palavras de sua mãe. Passou assim pelo Vasconcelos, com suas casinhas tristes. Viu de lá a grande cruz do Morro da Guerra, banhada pela luz da lua cheia. “Muita gente morreu ali, na guerra” pensou. E mais que depressa fez um Em Nome do Pai e apertou o passo. Era uma noite fria, daquelas que a ventania fica assobiando nos morros. Um assobio assustador. Era quase um uivo. Mais um Em Nome do Pai...

Ali perto tinha um grande pé-de-beijo. Diziam os antigos que ele era amaldiçoado. Mas ninguém sabia explicar por quê. Na verdade era uma bela árvore, mas naquele dia alguma coisa tava errado com ela. Alguma coisa tava balançando seus galhos e tava fazendo um grunhido muito esquisito. “Deve ser algum desocupado me fazendo medo, vou ver o que é”. Aproximou-se. Viu uma coisa enorme deitada. Pensou que fosse uma vaca doente. Encostou a mão nela, só para ajudar. O que era levantou a cabeça e...espanto! Subiu-lhe um calafrio no pescoço. Levou a mão na boca e se afastou de costas até tropeçar no trilho. Era um monstro, um monstro horrível. Era um lobisomem!

Os lobisomens de Rodrigo Silva eram diferentes dos outros. Não pareciam lobo. Pareciam porco! E este era grande, muito grande. Esbugalhava uns olhos redondos, cor de brasa. Soltava fumaça nas narinas. Nico olhou para suas patas e confirmou. Não era porco mesmo. “Era um lobisomo do outro mundo”. As patas destes seres têm um finco em baixo do casco. Por isso suas pegadas tem um furo no meio. Tentou correr, mas o monstro prendeu sua camisa com os dentes. E começou-lhe a pisar, levantando poeira e soltando uns berros horríveis. Nico tentava se defender, mas era impossível. Tampou os olhos com as mãos e rezou. Aí então houve silêncio. Levantou-se aos poucos. Não tinha mais nada. O pé-de-beijo estava calmo. Só uma brisa farfalhava suas flores. Nico saiu correndo. Pernas bambas. Ofegante. Chegou em casa com as roupas aos trapos.

No outro dia tava todo mundo falando do tal do monstro do pé-de-beijo. Os mais velhos não tinham dúvida. O monstro era um rapaz que há muitos anos morrera apaixonado por uma bela moça que pretendia desposar. O pai dela não permitiu o casório. E desde então ficava ali, por algum encanto do outro mundo, uivando com a lua cheia. Chorava sua amada na forma de um horrível monstro. Sempre no pé-de-beijo. As flores preferidas de sua amada.

Alex Bohrer
------------------------------------------------------


RODRIGO SILVA

No dia 1° de janeiro de 1888 o céu azul iluminou a singela estaçãozinha ferroviária do lugar. Todas as construções do complexo ferroviário cheiravam tinta fresca, iriam ser inauguradas naquele dia por um visitante ilustre. A grande locomotiva cuspiu fumaça e fogo no alto da serra. O vagão luxuoso aportou no patamar da estação. O velhinho de cartola e barba branca, que desceu logo em seguida, despertou vivas na multidão de ferroviários, que por anos a fio trabalharam na execução daquela obra gigantesca. O velhinho de barbas brancas era o Imperador D.Pedro II, sua missão naquele dia era inaugurar o complexo ferroviário de Rodrigo Silva, construído sobre as velhas fazendas da antiga José Correia. Pouca gente conhece esta cena ou já ouviu falar nisso, mas assim nasceu oficialmente Rodrigo Silva.

Os primeiros registros relativos ao local denominado José Correia sempre estão ligados à Santa Quitéria do Alto da Boa Vista, antiga paragem colonial, hoje abandonada, nas proximidades de Rodrigo Silva. A mineração de topázio sempre esteve presente na história do lugar. Viajantes estrangeiros já registravam a exploração de topázio no início do século XIX. Algumas destas lavras de topázio eram gigantescas empregando centenas de escravos. Até a chegada dos ferroviários, José Correia compunha-se de fazendas espalhadas por léguas de distância. A mais famosa delas é a Fazenda do Fundão, ainda existente. Nesta fazenda nasceu, em 1870, Alfredo Fernandes dos Prazeres personagem importante na construção da nova cidadezinha ferroviária. Quando no começo da década de 1880 fez-se o projeto da estrada de ferro ligando o Rio de Janeiro à Ouro Preto, projetou-se também uma nova paragem a se estabelecer em José Correia, que teria seu nome mudado para Rodrigo Silva em homenagem a um ministro imperial. O complexo ferroviário inaugurado em 1888 em volta da estação estendeu-se posteriormente de um lado a outro, paralelo à estrada de ferro. Alfredo Fernandes estabeleceu em Rodrigo Silva casas de comércio e doou o madeiramento para a construção da Igreja de Santo Antônio, padroeiro do lugar. As mercadorias chegadas na estação eram então distribuídas pela região, por vários tropeiros a serviço do jovem fazendeiro.

No começo do século XX fundou-se a Sociedade Musical Santa Cecília de Rodrigo Silva, símbolo primeiro da cultura desenvolvida pelos ferroviários. No arquivo desta banda encontram-se composições feitas pelos ferroviários, demonstração de grande apuro musical. Hoje nos trilhos de Rodrigo Silva não passam mais trens, mas a cultura do topázio continua, com a exploração do famoso topázio imperial, único do mundo. 

Alex Bohrer
----------------------------



sábado, 8 de maio de 2010

RODRIGO JOSÉ FERREIRA BRETAS

Você já ouviu falar em Rodrigo José Ferreira Bretas? Não?! Então nunca ouviu falar de uma das maiores personalidades mineiras do século XIX, o imortal biógrafo do Aleijadinho. Rodrigo J. F. Bretas nasceu em Cachoeira do Campo em 1815. Entre 1820 e 1839 alfabetiza-se e forma-se em humanidades nos Colégios do Caraça e Congonhas do Campo. Entre 1839 e 1844 leciona latim, filosofia e retórica em Barra Longa, Barbacena e Ouro Preto, além de ter sido nomeado Promotor Interino da Comarca. Em 1845 casa-se com Maria Cândida de Souza Maciel. Entre 1846 e 1849 funda e dirige um colégio em Bonfim do Paraopeba. Em 1850 é nomeado Oficial Maior da Secretaria do Governo da Província. Em 1852 é eleito deputado provincial, o primeiro de quatro mandatos. Em 1854 publica um livro sobre as origens das idéias do espírito humano. Em 1855 é agraciado com a nomeação de Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa. Em 1859 instala a Biblioteca Pública de Ouro Preto. Em 1861 é nomeado Inspetor da Instrução Pública em Ouro Preto e em 1862 assume da direção do Colégio de Congonhas. Além de professor e político Rodrigo Bretas foi um iminente inventor, criando e aperfeiçoando um novo e prático tear mecânico. Faleceu em 27 de agosto de 1866.

Em 1858 Bretas concluiu sua obra mais famosa: a primeira biografia do Aleijadinho, o que lhe valeu a eleição de sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Nesta biografia Bretas resgata para a posteridade a vida e as obras do famoso Mestre do Barroco Mineiro. Valeu-se de documentos e de entrevistas realizadas com idosos que haviam conhecido o Aleijadinho em vida, entre eles Joana, a nora do escultor. Por tudo isso Rodrigo Bretas é justamente reconhecido com um dos maiores vultos mineiros do século XIX e, sem dúvida, um dos mais importantes filhos de Cachoeira.

Alex Bohrer
----------------------------




Amarantina

Cresceu a cidadezinha aos pés da velha capela que mais tarde os féis transformariam em uma grande igreja, com duas torres imponentes. Insiste a lenda em dizer que a atual igreja, que no século XIX substituiu a antiga capelinha, é réplica em menor tamanho da Igreja de São Gonçalo do Amarante, em Portugal. Vinte anos atrás sua capela-mor foi, infelizmente, destruída. A imagem original do santo também se perdeu. Conserva hoje em seu interior, de interesse artístico, dois altares em estilo D João V, simplificados, e um curioso chafariz em cantaria.

Pouco distante da igreja encontram-se as ruínas de uma imensa casa construída de pedra. Atribui a tradição popular que o casarão foi construído pelos primeiros bandeirantes que lá chegaram nos idos do século XVII. Parece realmente, pela análise estrutural, que se trata de construção muito antiga. Porém não foram encontrados documentos acerca da verdadeira origem da ‘Casa Bandeirista’ e, nem tampouco, da própria Amarantina. Acredita-se que o povoado tenha surgido em meados do XVIII quando a produção agrícola de Cachoeira entrou em seu apogeu, reservando para os agricultores da baixada o plantio de alguns produtos especiais cujo terreno encharcado era propício - como o alho, por exemplo. Esta baixada, porque estava constantemente inundada pelas águas do Rio Maracujá, recebeu o nome de Tijuco. Posteriormente São Gonçalo do Tijuco, em homenagem ao santo vindo de Portugal. Coexistiu daí em diante com a denominação de São Gonçalo do Amarante, em lembrança da cidade de origem da imagem. No século XX, arbitrariamente, mudaram-lhe o nome para Amarantina.

Alex Bohrer
----------------------



terça-feira, 27 de abril de 2010

O Sino - II

Ó, Ave Maria! Pai Nosso!

Escutem: Rezam-se murmúrios.
Olhem: Lamentos chorosos.
Parem: ali segue o cortejo.
Sintam: vai à ultima morada.

Entre telhados úmidos e tímidos
Entre sacadas puras e frias
Entre portas fechadas e sem cor
Entre mil grades e cruzes

a neblina advinha a paisagem
a neblina embaça a paisagem
a neblina distorce a paisagem
a neblina esconde a paisagem

em montanhas de sonho e ouro.
em montanhas de sono e pedra.
em montanhas de pesadelo e mato.
em montanhas de morte e ferro.

Nesta cidade morta, que eu re-visito
Nesta cidade morta, que eu revisto
Nesta cidade morta, que eu resisto
Nesta cidade morta, que eu reviro

Do alto da velha torre, sob o céu cinzento
Do alto da velha torre, sob o céu de garoa
Do alto da velha torre, sob o céu lacrimoso
Do alto da velha torre, sob o céu tempestuoso

O sino balança o badalo


27/04/2010

Alex Bohrer
-------------------------------------





domingo, 25 de abril de 2010

O Sino - I

Ó, Ave Maria! Pai Nosso!
Escutem: Rezam-se murmúrios.
Entre telhados úmidos e tímidos
a neblina advinha a paisagem
em montanhas de sonho e ouro.
Nesta cidade morta, que eu re-visito
Do alto da velha torre, sob o céu cinzento
O
Sino
Balança
Balança sino
Badala o Balanço
Sino balança badalo
Sino badala o balanço
O sino balança o badalo
Sino
Ó


Ó, Ave Maria! Pai Nosso!
  Olhem: Lamentos chorosos.
    Entre sacadas puras e frias
      a neblina embaça a paisagem
        em montanhas de sono e pedra.
          Nesta cidade morta, que eu revisto
            Do alto da velha torre, sob o céu de garoa
              O
                Sino
                 Balança
                   Balança sino
                      Badala o Balanço
                        Sino balança badalo
                          Sino badala o balanço
                            O sino balança o badalo
                        Sino
                          Ó


Ó, Ave Maria! Pai Nosso!
      Parem: ali segue o cortejo.
                Entre portas fechadas e sem cor
           a neblina distorce a paisagem
                 em montanhas de pesadelo e mato.
                 Nesta cidade morta, que eu resisto
                       Do alto da velha torre, sob o céu lacrimoso
                  O
                  Sino
                      Balança
                          Balança sino
                              Badala o Balanço
                               Sino balança badalo
                                  Sino badala o balanço
                                     O sino balança o badalo
                                   Sino
                                         Ó


Ó, Ave Maria! Pai Nosso!
            Sintam: vai à ultima morada.
             Entre mil grades e cruzes
                      a neblina esconde a paisagem
                            em montanhas de morte e ferro.
                            Nesta cidade morta, que eu reviro
                                 Do alto da velha torre, sob o céu tempestuoso
                                           O
                                              Sino
                                                  Balança
                                                      Balança sino
                                                        Badala o Balanço
                                                         Sino balança badalo
                                                            Sino badala o balanço
                                                                O sino balança o badalo
                                                                              Sino
                                                                                    Ó



Alex Bohrer
27/04/2010
------------------------------------------------------


segunda-feira, 12 de abril de 2010

A Ponte do Palácio Velho

No último quartel do XVIII, Vila Rica, a grande e bela urbe do século mineiro, tinha contornos distintivos de cidade (apesar de, oficialmente, não ostentar este título), com praças, chafarizes, ruas pavimentadas e, claro, pontes (agora não mais aquelas rústicas pontes de madeira ou toscamente construídas de pedra, mas pontes importantes, de cantaria, pontes - conforme o poema de Tomás Antônio Gonzaga - ‘formosas’!) Para alem do caráter prático, as pontes vilarriquenhas foram concebidas segundo delineamentos estéticos definidos, sendo elevadas a pontos de contato, convivência social, locais privilegiados de conversas ao ar livre e, não raro, flertes: como bem atestam os versos árcades de Gonzaga e os patamares de pedra que em várias delas servem de assento.

As antigas pontes ouro-pretanas dignas de nota são a do Rosário, a dos Contos, a de Marilia, a do Funil (que conduzia à Estação Ferroviária); a da Barra, sobre o Ribeirão Funil, datada de 1806; a do Padre Faria, erguida em 1750; a de Ouro Preto (ou do Pilar), edificada em 1757; a Ponte Seca, aterro que unia os fundos do Pilar ao Rosário; a do Palácio Velho, que ligava a Praça de Antônio Dias às encostas da Encardideira.

A Ponte da Encardideira (ou do Palácio Velho) era uma via de acesso que, da Igreja Matriz de Antônio Dias atingia as íngremes encostas auríferas, na base dos morros de Ouro Preto, encostas chamadas então de “encardideira”, local de muitas e riquíssimas minas d’ouro (entre elas as do lendário Chico Rei, monarca negro em terras Geralistas). A Ponte da Encardideira, arquitetonicamente menos elaborada que outras da antiga vila, tinha, contudo, papel importante quando a região era povoada de lavras às margens do Córrego Sobreira, cujo leito ela atravessa. Foi nas proximidades desta ponte (ou de alguma sua predecessora) que se ergueu o primitivo Palácio dos Governadores, construído bem antes do que dominou, a partir de meados do século XVIII, o Morro de Santa Quitéria.

É certo que desde os princípios do século XVIII fez-se necessário a construção de uma ponte naquele local estratégico, todavia esta ponte primitiva deveria ter a aparência de todas as outras do período: estrutura de madeira ou mista. Foi só a partir da terceira década do século XVIII que começaram a aparecer as primeiras sólidas pontes de pedra, caso, ao que parece, desta ponte que atualmente se vê sobre o Córrego Sobreira.

Alex Bohrer
-----------------------